BREVE HISTÓRICO

É com imensa alegria que escrevo estas palavras de apresentação da nova etapa da revista Libertação-Liberación. E, ao fazê-lo, quero agradecer a todas as pessoas e instituições que mantiveram essa revista e seu projeto vivos ao longo dos anos e às pessoas e instituições que darão continuidade a esse importante trabalho. 

Como sabemos, toda ação humana – como a publicação de uma revista, por exemplo – requer fluxos de materiais, de poderes e de conhecimentos que se entrelaçam na práxis de sua própria realização histórica, sem os quais ela não existiria. A sua perduração depende, por outra parte, da permanência de anéis que consolidem esses laços na manutenção constante de tais fluxos na realimentação histórica de seu próprio devir. 

Por isso, podemos analisar a história da Revista Libertação-Liberación – como a de qualquer realização humana – investigando os fluxos de materiais, de poderes e de conhecimentos que lhe deram origem e consistência, graças à práxis dos seres humanos que a fizeram surgir; os laços colaborativos que realimentaram tais fluxos ao longo do tempo; os anéis institucionais de perduração desses laços e os sentidos e significados que os atores atribuíram a essa revista em suas distintas fases em contextos históricos diversos. 

Em assim fazendo, percebemos que ela resultou de um processo colaborativo e solidário, que tinha em sua base um projeto dialógico de fomentar o debate filosófico em torno de temáticas de libertação e de criar um meio de compartilhar elaborações de outras ciências em torno da libertação numa perspectiva pluridisciplinar. O nome bilíngue da revista, por sua vez, revela a sua originária identidade latino-americana, considerando os dois idiomas de maior presença no interior da América Latina e Caribe, entre as centenas de línguas vivas praticadas na região. 

A revista Libertação-Liberación surge após o 3º Encontro Nacional de Filosofia realizado em Gramado, no Rio Grande do Sul em 1988, e não por acaso seu primeiro texto é a Carta produzida nesse encontro e subscrita por uma parte dos presentes, que assumia o compromisso de “promover o desenvolvimento da Filosofia da Libertação” nas atividades de docência, pesquisa e fórum de debates, “articulados com movimentos sociais comprometidos com a causa dos oprimidos”. Salientava o documento que os grandes filósofos de todas as épocas traduziram suas preocupações antropológicas, sociais e políticas através de seus escritos e suas filosofias podem, perfeitamente, ser caracterizadas como “comprometidas” com uma realidade social, política e econômica historicamente identificada. // A Filosofia de Libertação, no contexto da Filosofia Latino-Americana, constitui uma corrente do pensamento filosófico que busca a reflexão crítica sobre a opressão do homem, a partir de uma perspectiva latinoamericana. // Para a Filosofia da Libertação constituem questões fundamentais para a reflexão e ação: a) a situação de exploração e dependência do terceiro mundo; b) a democracia, c) a educação; d) a justiça social; e) as situações de discriminação étnico, racial e sexual; f) a ecologia (Carta de Gramado, Libertação-Liberación, n. 1, 1989, p. 6). 

É interessante destacar que a revista sempre esteve articulada a alguma instituição autogestionada da sociedade civil dedicada à reflexão filosófica, como o Centro de Estudos de Filosofia Latino-Americana – CEFLA, o Centro de Estudos e Pesquisas de Filosofia Latino-Americana – CEFIL e o Instituto de Filosofia da Libertação – IFiL. 

Em sua primeira fase (1989-1993) foram produzidos três números. Em seu primeiro número apresenta-se a identidade da revista que permaneceu a mesma ao longo de sua história: 

Uma palavra, uma questão (teórico-prática) perpassa a América Latina hoje: LIBERTAÇÃO. // Nossa revista pretende acolhê-la como coluna vertebral identificante. // As páginas de LIBERTAÇÃO/LIBERACIÓN ficam abertas, pois, à reflexão e à discussão sobre essa questão do nosso tempo. // O núcleo definidor da revista é filosófico, mas toda contribuição vinda das demais disciplinas humanísticas (Teologia, Sociologia, Economia, História, Educação, Linguística, etc.) tem aqui seu espaço. // Dentro dessa pluridisciplinaridade (que oxalá resulte em interdisciplinariedade) o debate há de ser a tônica, porque só na crítica que gera o aprofundamento reflexivo no seio da pesquisa coletiva é que o pensamento libertador alcançará a consistência que lhe é exigida pelo seu compromisso-responsabilidade teórico-prática (Definições, LibertaçãoLiberación, n. 1, 1989, p. 5). 

Após este primeiro número, que esteve sob responsabilidade do CEFLA, tendo por editores a Sirio Lopez Velasco, Sérgio Luis Mar Pinto e Olírio Plínio Colombo, o segundo número foi publicado em 1991, sob responsabilidade do CEFIL, tendo por editores a Jesus Eurico Miranda Regina e Márcio Luis Costa. 

No editorial escreve Sirio Velasco que “depois de inumeráveis dificuldades financeiras [...] graças ao esforço gigantesco dos colegas do CEFIL [...] consegue ver a luz este demorado no 2 da nossa Revista”. Retomando implicitamente aspectos da Carta de Gramado, salienta Lopez Velasco que 

[…] a exploração e o domínio exercido pelos países do capitalismo central sobre os países do capitalismo periférico, a alienação padecida pelos homens […] de ambos os polos do sistema capitalista mundial, a miséria da maioria da humanidade atual, a discriminação-repressão-descaso sofrido pelas culturas alheias ao modo de produção capitalista e a triste sorte reservada neste aos assalariados, desempregados, minorias étnicas, crianças e idosos, a persistência da situação degradante imposta à muIher pela cultura machista, a aniquilação das capacidades de reflexão e criação provocada nas novas gerações pela pedagogia bancária, o desastre ecológico inevitável e crescente [...] na lógica produtivo-destrutiva do capitalismo, entre outros fatores, indicam às claras que a libertação continua sendo o tema do nosso tempo. // Por isso a esse tema continuamos e continuaremos dedicando os esforços da nossa reflexão e da nossa prática exercendo um filosofar vivo, engajado e profético guiado pela busca de uma humanidade constituída como comunidade de comunidades [...] (LOPEZ VELASCO, Editorial, Libertação-Liberación, n. 2, 1991, p. 3). 

No número seguinte destaca Jesus Regina (Editorial, Libertação Liberación, n. 3, 1993, p. 3) que “[…] a periodicidade da Revista não tem sido definida por uma frequência maior, porque as condições financeiras do CEFIL não têm permitido […]” e salienta que a Revista “[...] tem sido um veículo de fundamental importância na divulgação de muitos trabalhos que estão sendo produzidos em várias partes do mundo e não tem tido oportunidade de serem difundidos em outras publicações de circulação internacional.” 

Em sua segunda fase (2000-2006) foram produzidos 5 números, sob responsabilidade do IFiL, tendo por editores, ao longo desse período, o presidente e o vice-presidente da entidade, que na época do relançamento eram Giselle Moura Schnorr e Celso Ludwig, e por conselho editorial equipes eleitas em Assembleia Geral do Instituto, sendo a primeira delas composta por Domênico Costella, Neusa Volpe, Anna Maria Laporte e Euclides Mance. No editorial de lançamento dessa nova fase afirma-se que a revista manterá o mesmo projeto inicial, com aproximadamente 80 páginas e publicação semestral, tendo três seções: artigos, comunicações e resenhas. Sobre os idiomas que contemplará, estima-se que 80% dos textos sejam em português e espanhol e os demais sejam em outras línguas. A linha editorial da revista permanece a mesma indicada em seu primeiro número. Ela continuará aberta, como sempre esteve, a veicular reflexões sobre temáticas peculiares à filosofia da libertação bem como elaborações nas diversas áreas do conhecimento sobre a práxis de libertação (Editorial, Libertação-Liberación, Nova Fase, n. 1, 2000, p. 7-8). 

Lê-se, na folha de rosto dessa edição, que o IFiL é “uma entidade civil sem fins lucrativos atuante em duas frentes: o âmbito intelectual, da produção teórica, e a atuação junto aos movimentos sociais, onde teoria e prática se fundem em ações transformadoras da realidade e na reflexão geradora de novas teorias” (Libertação-Liberación, Nova Fase, n. 1, 2000, p. 1). 

Mas embora os fluxos solidários de conhecimento e de poder no interior dessa rede colaborativa estivessem realimentados no propósito de dar continuidade ao projeto inicial da Revista, por outra parte a carência de recursos materiais impediu, novamente, a continuidade da sua publicação. De fato, tratava-se de uma revista física, cujo trabalho de editoração, impressão e distribuição tinha custos próprios a serem cobertos que não eram poucos e dificilmente recuperados com as parcelas de exemplares vendidos. Assim, ao longo do tempo, os valores imobilizados nos estoques não giravam rapidamente o bastante para cobrir as novas edições, exigindo novos aportes dos associados. 

Cabe recordar, por outra parte, que esse mesmo fluxo de materiais dispendidos na produção da Revista alimentou, igualmente, na maioria das suas edições, uma práxis solidária de libertação econômica. Pois, no caso dos números publicados em Curitiba, todos eles foram impressos na Editora Gráfica Popular, uma empresa autogestionada de economia solidária. 

Mas para bem compreender o significado histórico da publicação dessa revista ao longo dos anos é necessário recordar o contexto acadêmico bastante adverso, em geral, à filosofia da libertação naquele período. Sofrendo críticas preconceituosas, marginalizações e exclusões em razão de seu manifesto compromisso com a produção de conhecimentos filosóficos sobre as práxis de libertação dos oprimidos, por seu trabalho de criticá-las e potencializá-las em sua capacidade transformadora, restava aos pesquisadores, docentes e estudantes organizarem entidades não-governamentais que permitissem institucionalizar espaços de elaboração filosófica e a sua comunicação orgânica – contando para isso tão somente com a contribuição voluntária dos associados e associadas dessas mesmas organizações, sem quaisquer outras fontes de recursos. Alguns desses professores foram, inclusive, despedidos de universidades ou tiveram seu ingresso definitivo nelas vetado por assumirem a filosofia da libertação como referência teórica principal em seu trabalho como docentes. 

Por outra parte, embora a Internet tenha surgido em 1989, a sua ampla difusão no Brasil não foi imediata e as tecnologias de reprodução e veiculação de imagens exigiam muita capacidade de tráfego de dados, num tempo em que as conexões entre computadores se faziam via modem, usando linhas discadas de telefonia fixa. Por sua vez, do ponto de vista acadêmico, ainda não havia padrões para a publicação de revistas eletrônicas nem plataformas amigáveis para fazê-lo. Mesmo assim, o IFiL ensaiou a publicação pioneira de uma revista digital de filosofia em disquetes, enviados pelo correio convencional aos assinantes, com um comando de autorreplicação automática para facilitar a sua reprodução e distribuição, na qual os artigos da Libertação-Liberación n. 2 foram publicados em formato eletrônico em 1996. Por fim, como iniciativa para a retomada da publicação Revista em formato digital, foram digitalizados em 2013 todos os seus números e publicados no site do IFiL. 

Na terceira fase que ora se inicia da Libertação-Liberación, em razão das facilidades atualmente existentes para a sua produção digital e difusão on line, que reduzem sobremaneira os custos monetários implicados, a centralidade se volta aos fluxos de poder e de conhecimento requeridos para a sua realização. 

Após as várias edições do Congresso Brasileiro de Filosofia da Libertação e da organização de mecanismos de comunicação mais ágeis para a integração de pesquisadores/as, docentes e estudantes nessa área no país é chegado o momento de retomar-se a publicação da Revista. Os diálogos entre IFiL e AFyL resultaram no projeto atual de obtenção do ISSN de revista digital para a Libertação-Liberación desde seu primeiro número, possibilitando relançar todas as edições anteriores no formato digital, pesquisável com comandos de busca, mantendo entretanto a mesma imagem das páginas das revistas originais como documentos históricos a serem preservados, de modo a que os leitores e leitoras tenham acesso a eles tal como foram publicados. 

Embora já em sua primeira fase a revista fosse indicada como órgão da AFyL, na prática ela sempre esteve associada institucionalmente às entidades que a publicaram. Com a organização da AFyL-Brasil no período recente, abriu-se a possibilidade de a Revista finalmente ser publicada pela própria AFyL, através de sua seção brasileira. Contudo, em razão da AFyL não possuir personalidade jurídica própria, a titularidade formal da Revista permanece mantida pelo IFiL. 

Conforme o projeto atual, prevê-se duas edições anuais, publicando-se os artigos nos idiomas originais de recebimento. Mantendo-se fiel à sua tradição, o núcleo definidor da revista é filosófico, mas ela continuará aberta a veicular reflexões em outras áreas do conhecimento, contribuindo assim para uma compressão multidisciplinar da práxis de libertação. 

Por Euclides Mance (Mai. 2022)